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16 de abr de 2012

O RIO QUE O RIO NÃO VÊ

                              

Todos os dias da semana, das primeiras horas da manhã ao alvorecer, as ruas do Centro da cidade do Rio de Janeiro são visitadas por milhões de pessoas, a maioria das quais a trabalho. Umas usuárias das diversas linhas de ônibus que convergem ao Centro vindo de todas as partes da cidade aguardam desligadas – e na maioria das vezes desconfortavelmente instaladas – o momento de saltar. Outras caminham em múltiplas direções, no intuito de chegar a algum lugar, seja o trabalho, um local para almoçar ou uma loja comercial qualquer, num intenso frenesi de objetivos. Sua atenção está voltada para os milhares de veículos que diariamente circulam pela cidade. Ou para a miríade de gatunos que se aproveitam de um momento qualquer de desatenção para levar-lhes o celular ou as suadas economias. As mulheres preocupadas com as bolsas. Os homens, com os bolsos. Por vezes, ainda, não prestam atenção a coisa nenhuma. Simplesmente caminham, mecânica e nervosamente, sugerindo a velha imagem de formigas num formigueiro.

É pena. Esse misto de tensão e desatenção não lhes permite perceber que o Centro do Rio de Janeiro oferece uma espetacular aula de história da arte a céu aberto. Como localidade histórica inicial de fundação da cidade, o Centro está repleto de construções civis e religiosas nascidas ao longo desses quase 500 anos de civilização carioca. E como núcleo principal de uma cidade que foi capital da Colônia, do Império e da República por quase duzentos anos, nele se encontram instaladas as sedes das mais diversas instituições, públicas e privadas, como museus, teatros, bibliotecas, bancos, seguradoras, companhias de navegação e muito mais.

O presente artigo apresenta uma pequena parte da pesquisa empreendida pelo autor no livro O RIO QUE O RIO NÃO – OS SÍMBOLOS E SEUS SIGNIFICADOS NA ARQUITETURA CIVIL DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO. Como o título já sugere, a ideia central aqui é tentar estabelecer uma relação simbológica entre os ornamentos principais das fachadas dos prédios civis – tanto públicos como privados – com o uso final desses imóveis. Em outras palavras, pretende-se estabelecer uma função objetiva – o objetivo contido no símbolo – para a existência dos ornamentos nas diferentes fachadas estudadas.

Dentre os movimentos e estilos arquitetônicos inspiradores das inúmeras construções que foram se acumulando ao longo do tempo na malha urbana carioca, foi o Ecletismo, principalmente, o que mais se ocupou de estabelecer uma profunda relação entre os ornamentos e sua função simbólica na concepção das fachadas. No Rio de Janeiro, foi nas duas primeiras décadas do Século XIX que esse movimento arquitetônico – amado por uns e desprezado por outros – teve seu apogeu. É nesse período, pois, que se concentra a grande maioria dos ornamentos/fachadas aqui estudados.

Como o interesse iconográfico da pesquisa era tão somente o ornamento, muitas vezes de pequenas dimensões em comparação ao todo, o autor lançou mão de uma lente fotográfica capaz de aproximar o ornamento arquitetônico sem perder-lhe a riqueza de detalhes, destacando-o quase completamente da fachada a que pertence. Convém lembrar que a maioria das imagens do presente trabalho – que no momento já remontam a quase 1000 – foi feita a partir do nível da rua e que os símbolos estudados estão, na esmagadora maioria dos casos, localizados no alto das fachadas, portanto a 20, 30, 50 ou por vezes 100 metros de distância do fotógrafo.

O Rio de Janeiro, em especial o Centro da cidade, possui várias joias da coroa no quesito construções dotadas de ornamentos. O Teatro Municipal, a Assembleia Legislativa, o Palácio Pedro Ernesto, a Santa Casa da Misericórdia, a Secretaria Estadual de Fazenda, são exemplos óbvios. Mas destaque-se também as fachadas de imóveis pertencentes ao pequeno comércio, como a Sapataria Scarpia, na esquina da Avenida Passos com a Rua Buenos Aires, ou as Casas Franklin, na mesma Avenida Passos, cuja fachada mereceu, por sua beleza e monumentalidade, a escolha como símbolo do Projeto Corredor Cultural do Rio de Janeiro, que visa à preservação e à conservação dos prédios de interesse histórico e artístico na cidade.

O Museu Nacional de Belas Artes é igualmente uma dessas joias da coroa. Ocupando todo um quarteirão – a fachada principal faz frente para a Avenida Rio Branco, as laterais para as ruas Araújo Porto Alegre e Heitor de Melo e a fachada traseira para a Rua México – o prédio está lotado de ornamentos simbólicos, todos evidentemente relacionados às artes. São alegorias à Arquitetura, à Pintura, à Escultura, instrumentos de trabalho dos mais diversos fazeres artísticos, alto-relevos relativos às civilizações clássicas e suas contribuições artísticas, musas e deusas fazendo as vezes de cariátides e representações dos gênios da arte universal, como Leonardo da Vinci e Vitruvio, e dos membros da Missão Artística Francesa de 1816, como Grandjean de Montigny, Debret e Taunay.

Destacam-se, para efeito do presente artigo, os excepcionais alto-relevos em terracota na fachada da Rua México, dois retangulares e dois em formato de semicírculo, executados pelo escultor inglês Edward Caldwell Spruce, ativo na cidade de Leeds na virada do Século XIX para o XX.

Os magníficos alto-relevos de Spruce estão lá, na Rua México, para quem se dispuser a admirá-los. Concentraremo-nos, aqui, no primeiro deles, apenas. Disposto à esquerda da fachada, em semicírculo, retrata uma grande cena com doze pessoas em três grupos: o grupo central é dominado pela figura alegórica da Arquitetura portando uma maqueta. Por trás dela, à sua direita, vê-se figura também relacionada à Arquitetura, pois conduz esquadro, fio de prumo e desenho; à sua esquerda está a Escultura, que tem à mão uma estatueta. O grupo no canto inferior esquerdo, composto por quatro pessoas, é dominado pela figura de um escultor, com seus instrumentos de trabalho, e no grupo da direita vê-se um sacerdote, crucifixo em punho; completam cada grupo, no primeiro plano, duas mulheres apontando para um livro aberto: seria possível ver na mulher da esquerda uma alegoria às letras profanas, já que ela tem os seios à mostra, enquanto a da direita, mais recatada, representaria as letras sagradas?

Compete com o MNBA, no quesito riqueza de ornamentos, o recém-restaurado Teatro Municipal, bem defronte ao anterior. Considerado a expressão máxima do Ecletismo em nossa cidade, ele está ornamentado “dos pés à cabeça” e por todos os ângulos de observação. Nesses tempos de restauração, em que o prédio reluz de novo, não se pode deixar de observar, por exemplo, as diversas cariátides em bronze que “sustentam” a fachada principal. Uma delas tem os seios à mostra e está representada junto a diversas frutas, com destaque para o abacaxi e as uvas que lhe adornam os cabelos. É Ceres, a deusa grega das colheitas. Uma outra, também desnuda, não possui, numa fugaz observação, nenhum atributo que lhe indique a identidade, mas observe-se que sua cabeça e suas partes pudendas estão cobertas por uma grande pele de animal, um felino. Trata-se, portanto, da deusa caçadora grega Ártemis, equivalente a Diana na simbólica romana. Os exemplos não param.

No tímpano do frontão da Santa Casa da Misericórdia, no número 206 da Rua Santa Luzia, encontra-se um dos mais notáveis alto-relevos da cidade, de autoria do italiano Luiz Giudice. No centro de um monumental medalhão circular em pedra de lioz predomina a figura da Virgem da Misericórdia, também chamada Virgem do Manto Protetor; sob um grande manto, símbolo da Santa Casa da Misericórdia, ela abriga 8 pessoas, representantes de todos os grupos sociais. Nossa Senhora da Piedade, representada por mulher sentada amamentando criança, é vista à esquerda da figura principal; à direita, um religioso da Ordem da Santíssima Trindade, ajoelhado e fitando diretamente a Virgem, representa Frei Miguel de Contreras, frei espanhol radicado em Lisboa a quem é atribuída a fundação, em fins do Século XV, da Santa Casa da Misericórdia. Completam a cena outras cinco pessoas, em andrajos ou desnudas: três crianças, um jovem e uma mulher com pano amarrado à cabeça, que ampara a menor das crianças. Na parte inferior do medalhão, abaixo da cena acima descrita, dois brasões: o da Santa Casa da Misericórdia (cruz e escudo com as cinco chagas de Cristo) e as armas do Segundo Reinado brasileiro, representadas pela coroa imperial, a esfera armilar e a cruz da Ordem de Cristo; entre os brasões, as três flechas que supliciaram São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro; por trás dos brasões, á direita e à esquerda, ramos de plantas simbólicas.

Mas deixemos um pouco de lado a observação das opulentas fachadas dos prédios oficiais – como as das três instituições acima – e concentremo-nos, por um instante, na profusão de pequenas construções civis, a maioria destinada ao comércio, que o vocabulário arquitetônico eclético fez florescer em nossa cidade. A necessidade conceitual de que a arquitetura deveria exprimir através do estilo a função a que se destinava forçou o desenvolvimento de uma apurada mão de obra artesanal, artistas que, se não conseguiram colocar seus nomes nos compêndios clássicos da arquitetura nacional, ajudaram, com uma interpretação simbólica toda própria dos ornamentos, aliada a uma profunda liberdade criativa, a forjar uma cidade culturalmente mais alegre e mais rica.

Um desses exemplos de liberdade criativa pode ser visto no coroamento do Hotel Aymoré (Rua Carlos Carvalho, 106), na Praça da Cruz Vermelha: o busto de uma figura masculina desempenha a dupla função simbólica de representar o índio brasileiro ao mesmo tempo em que evoca a figura do deus romano Mercúrio, padroeiro dos comerciantes, através de um único adereço, o cocar indígena de um e o capacete alado do outro.

A cornucópia é um antigo símbolo de riqueza, prosperidade e abundância. Terá sido essa a razão de o artista inserir, na fachada do número 4 do Largo São Francisco de Paula, vários pares de luvas e leques brotando a partir das extremidades de duas cornucópias? Teria funcionado ali uma luvaria?

Alheio às buzinas dos carros, sirenes das ambulâncias e ao barulho dos homens, com as pernas para fora de seu nicho, indiferente até ao perigo de cair, um querubim graciosamente esculpe, concentrado, um busto de mulher. O pequeno detalhe, a 30 metros de altura, pertence ao Edifício Engenheiro Ataulpho Coutinho, no número 287 da Rua do Riachuelo. Só não vê quem não quer.

Nem só de referências cristãs ou da Grécia Antiga vive a ornamentação arquitetônica carioca. Em muitos sobrados podem ser facilmente encontradas manifestações simbólicas que remetem à tradição franco-maçônica. São olhos que tudo veem, réguas, compassos, esquadros, pentagramas e muito mais. Um dos mais notáveis exemplos se encontra no coroamento do sobrado localizado no número 54 da Rua Frei Caneca: um compasso e um esquadro se entrelaçam junto a uma régua e uma engrenagem.

Uma visita ao número 40 da Rua Pedro Alves, na Gamboa, não terá sido em vão. Ali o proprietário, apaixonado pela tradição egípcia, fez representar, ao longo de toda a fachada, deusas e discos solares alados.

Que significado terão três leões dispostos triangularmente, dois dos quais empunhando botas quase maiores do que eles próprios, no número 98 da Rua do Lavradio? E o que estaria fazendo, passeando por uma ensolarada cadeia nevada de montanhas, um urso polar em plena Avenida Rodrigues Alves?
São as perguntas acima, e muitas outras, que O RIO QUE O RIO NÃO VÊ se pretende responder. Quem vir verá.

Sobre o autor:
Luiz Eugenio Teixeira Leite é designer gráfico, fotógrafo e crítico de arte.

 

Sobre a obra

O RIO QUE O RIO NÃO VÊ– OS SÍMBOLOS E SEUS SIGNIFICADOS NA ARQUITETURA CIVIL DO CENTRO DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
Editado pela AORI, o livro foi patrocinado pelo BNDES e temaproximadamente 200 fotografias coloridas em 250 páginas.


 


 

Lançamento - No próximo dia 18 de abril, a partir das 18 horas,na Livraria da Travessa da Rua Sete de Setembro, 54, no Centro do RJ.
A entrada é franca,

Espero vocês lá!

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